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OS SUBSTRATOS “VERDES” SERIAM A SOLUÇÃO?

OS SUBSTRATOS “VERDES” SERIAM A SOLUÇÃO?

Por Assunta Napolitano Camilo *

 

 

O CAMINHO CERTO PARA AS NOSSAS EMBALAGENS MELHORAREM A RELAÇÃO COM O MEIO AMBIENTE PASSA PRIORITARIAMENTE PELO CONJUNTO QUE A ENVOLVE, NÃO APENAS PELOS MATERIAIS

 

 

       1 - Introdução

       As abordagens que discutem os temas sobre as questões ambientais e as consequências do clima de “final dos tempos” têm gerado, na indústria de embalagens, uma super demanda por substratos mais “verdes”. A dúvida é: será que estamos na direção correta, falando com propriedade sobre o mesmo assunto? Para responder a esses questionamentos é importante saber, separadamente, quais são e como funcionam as diferentes novidades em materiais para embalagens que o mercado oferece. Neste artigo, começamos pelas definições dos mais conhecidos, atualmente:

  • Biodegradável: é todo material que, após o seu uso, pode ser decomposto por microorganismos usuais do meio ambiente (enquadra-se aqui o Ecovio da BASF e alguns filmes da Innoviafilms);
  • Compostável: refere-se ao material biodegradável, em que um dos componentes da biodegradação é um sólido nutriente para a terra;
  • Reciclável: material que pode ser utilizado novamente para o mesmo ou outro fim;
  • Reciclado: material produzido a partir de material já utilizado;
  • Oxidegradável: material que, a partir de um aditivo adicionado a ele, acelera sua ação de quebra, dividindo-o em pedaços muito pequenos (enquadra-se aqui os aditivos da Simphony, comercializados no Brasil pela ResBrasil);
  • Bioplástico ou Plástico de Fonte Renovável: são substratos produzidos a partir matéria-prima vegetal, como: amido, milho, etanol. Nesta categoria está o PLA e o plástico verde, por exemplo, o Polietileno da Braskem. Importante esclarecer que o fato de o plástico ser de fonte renovável não quer dizer automaticamente que também é biodegradável.

       Mas, afinal, qual é o caminho certo para as nossas embalagens melhorarem a relação com o meio ambiente? Essa deveria ser a questão central, pois o relevante não é o material utilizado, e sim todo o conjunto. Para se avaliar corretamente o impacto e comparar as opções temos que realizar a Análise do Ciclo de Vida da embalagem (ACV), que permite ser conhecida, minuciosamente, cada fase em todo o processo produtivo dos envolvidos, desde a produção da matéria-prima até o descarte final da embalagem. Essa análise demanda tempo e investimento e o resultado pode ter prazo de validade e amplitude geográfica limitada, projeto que na maioria das vezes é abandonado.

       2 – Para produzir a melhor embalagem

       Para buscarmos produzir a melhor embalagem para uma determinada situação é relevante se guiar por alguns passos, como estes a seguir:

  1. a embalagem deve ser adequadamente dimensionada, pois uma vez superdimensionada gera ainda mais resíduo, porém, se ela for subdimensionada, é muito pior, pois compromete o produto e a própria embalagem; ela deve apresentar barreira correta, ter compatibilidade com o produto, além de perfeita selagem;
  2. não utilize materiais ou insumos (tintas, adesivos etc.) tóxicos no processo ou no descarte;
  3. use preferencialmente uma solução monomaterial e, se não for possível, pratique os conceitos do ecodesign, facilitando a desmontagem para a recuperação dos diferentes materiais;
  4. se possível, utilize materiais reciclados e/ou recicláveis;
  5. utilize sempre a rotulagem ambiental correta para habituar e orientar o consumidor ao descarte correto;
  6. dê preferência a práticas e tecnologias de produção “limpas”;
  7. estude o real impacto ao meio ambiente de cada elemento da embalagem;
  8. avalie o processo e entenda o que e onde pode ocorrer melhora: na impressão, nos processos intermediários, no envase, entre outros;
  9. procure saber como os terceiros envolvidos no projeto estão tratando o assunto (descartes de processo, material de limpeza, etc.).

       Como você pode notar, a situação é muito mais complexa do que simplesmente a escolha de um substrato em detrimento a outro. Precisamos ser responsáveis para cuidar da produção e orientar o descarte, além de saber quais são as possibilidades após a coleta de cada material. É por isso que nesse raciocínio é importante entender ao máximo a lei dos Rs:

Reduzir, Remover, Reciclar, Refil, Recriar, Recuperar, Reinventar, Reutilizar, Repensar, entre outros. Por exemplo, na discussão sobre as sacolas de saída de supermercado, focar apenas no material usado não é a melhor solução. Em todo o processo é preciso entender para educar o consumidor, esclarecer, evitar desperdícios e entregar um bom produto.

       3 – É preciso entender para educar

       Coincidentemente, escrevi este artigo, em férias nos países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia – região no nordeste da Europa), lugares tradicionalmente conhecidos por habitar um povo que foi muito massacrado por sucessivas invasões e situação de guerras. Na história, viveu subjugado por suecos, alemães e, por fim, pelos russos, que quase destruíram sua cultura, mas perseverou na vontade de seguir em frente. Em apenas 22 anos após a libertação do regime soviético, esse povo conseguiu se restabelecer, reconstruir os seus países e sistemas político, econômico e cultural. Os cidadãos bálticos demonstram satisfação e orgulho da superação e seguem trabalhando muito com a dificuldade atual que toma toda a Europa.

       Na pesquisa de campo, que sigo fazendo nos pontos de vendas, presenciei em vários supermercados, o respeito e a parcimônia com que as pessoas pegam as sacolas. No RIMI, uma das maiores redes da região (originalmente letão) mantém à disposição de seus clientes praticamente todas as opções de sacolas: papel, biodegradável, reciclada e retornável. Cada qual com o seu preço, função do custo de cada uma. Há também orientação e explicação de cada opção, tudo de forma clara e transparente.

              Como disse, precisamos ser responsáveis para cuidar da produção  da embalagem e orientar o descarte, e isso deve começar desde o processo produtivo, nos cuidados com os efluentes, com as tintas usadas, com os colaboradores, com os terceirizados envolvidos, com o consumo de energia e água, com as emissões de gases, entre tantos outros aspectos tão ou mais relevantes do que simplesmente a oferta ou escolha de um novo substrato.

              Insisto também na importância da correta rotulagem ambiental, e considero essa iniciativa como sendo o primeiro passo para melhorar a relação com os agentes de coleta e com a população. Para ter resultado nessa questão é preciso a identificação correta dos materiais utilizados na embalagem, o que pode ser alcançado pela prática da rotulagem ambiental.

       4 – A importância da simbologia

       O objetivo da simbologia para identificação de materiais das embalagens é promover a melhoria da qualidade ambiental de produtos e processos mediante a mobilização das forças de mercado pela conscientização de produtores e consumidores. Como no Brasil o aspecto social relacionado à coleta seletiva, por meio da inserção dos catadores de materiais recicláveis, é fator determinante, os símbolos se tornaram ferramentas indispensáveis no auxílio às atividades desses verdadeiros “agentes ambientais”. Para começar a melhorar a relação com o meio ambiente, é preciso utilizar a identificação correta dos materiais. Dessa forma, os símbolos são muito importantes nas etapas de coleta seletiva e triagem.

       As normas brasileiras, como a ABNT ISO/TR 14062:2004 Gestão Ambiental, que são alinhadas às normas internacionais, devem também ser observadas. Existem atualmente três tipos de normas de rotulagem e suas abordagens, como se seguem:

• Rotulagem Tipo I – Programas de selo verde;

• Rotulagem Tipo II – Autodeclarações ambientais;

• Rotulagem Tipo III – Inclui Avaliações de Ciclo de Vida.

       Essas normas são bastante simples de serem obtidas, por exemplo, acessando o website da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas (www.abnt.com.br). Elas possuem força de lei e são facilmente compreendidas e incorporadas às embalagens. Não oneram de forma alguma e podem tornar melhor a relação com o consumidor. Podem ainda se agregar às orientações sobre o descarte, educando os consumidores, aproximando-se deles e melhorando a imagem da empresa quanto à questão ambiental.

       Para os materiais desenvolvidos com plástico, a simbologia mais utilizada se refere à Norma NBR 13230 da ABNT. Está baseada em critérios internacionais e é muito importante para orientar os programas de coleta seletiva, especialmente para catadores e sucateiros. Veja a simbologia dos materiais plásticos na Figura 2.

       Quando mencionamos que a embalagem possui em sua composição parte de material reciclado, devemos mencionar ao lado do símbolo a porcentagem de material reciclado presente, como apresentado na Figura 3:

       Em toda essa nova realidade sobre as questões ambientais e a preocupação dos donos de marcas em passar uma visão positiva sobre suas ações, é bom que se evite sob qualquer hipótese o “green washing”, ou seja, demonstrar ser ambientalmente “correto” com inverdades e falácias. Esses são recursos que podem resultar em penalidades e ainda pior, no repúdio por parte do consumidor, que se torna cada vez mais atento, e em grande desgaste na relação com aquele que é instruído, ocasionando, inclusive, a mídia negativa. Por tudo isso, vale evitar ações como estas:

  • Frases com informações irrelevantes, vagas e sem embasamento, por exemplo, imagem de um selo estampado na embalagem de pão com a palavra “degradável”, encontrada num supermercado de São Paulo. A rigor, qualquer material em sua degradação depende do tempo e das condições;
  • “Selos” que remetem a certificações – qualquer um deles para ser utilizado deve ter a comprovação do órgão emissor. Atenção: em muitos casos, inclusive, existem regras que orientam a sua utilização, como o caso do selo do FSC.

       A indústria deve aproveitar a oportunidade de mudar a imagem negativa que, em alguns casos, existe sobre a embalagem. Podemos usar a embalagem como um veículo de informação para colaborar na educação de novos hábitos de consumo e, com isso, esperar reverter o quadro que as mesmas ocupam atualmente na discussão “embalagem versus meio ambiente”. Conhecer bem os novos substratos e entender como funciona cada um deles é, sem dúvida alguma, um grande passo.

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Assunta Napolitano Camilo (*)

É Diretora da FuturePack - Consultoria de Embalagens, e do Instituto de Embalagens - Ensino & Pesquisa. Profissional de embalagens há 30 anos, pesquisa feiras e PDVs do mundo desde 1986. É articulista, professora e palestrante internacional de embalagens, coordenadora dos livros: Embalagens Flexíveis; Embalagens de Papelcartão; Guia de Embalagens para Produtos Orgânicos; Embalagens: Design, Materiais, Processos, Máquinas & Sustentabilidade; e do Kit de Referências de Embalagens. É também Membro do Conselho Científico - Tecnológico do ITEHPEC.

Fonte: Revista Inforflexo edição 125 – Julho/Agosto de 2013

 

 

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